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Cartas Perto do Coração

“E assim nos tornamos amigos – só não digo “inseparáveis”, porque outras viagens nos separaram, cada um para o seu lado. Mas a amizade continuou, através das “cartas perto do coração”, de 1946 a 1969, com uma frequência só interrompida quando nos encontrávamos ambos no Rio:
“Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo, ébrios de mocidade. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens ‘perto do coração selvagem da vida’: o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante o enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores”.

(Fernando Sabino, falando de sua amizade com Clarice Lispector, na abertura de Cartas Perto do Coração)

Poesia, sempre!

Uma inspiração, Farkas!

Minha meditação inspirada em Farkas

Faz um tempo que não escrevia nada aqui no blog e não queria que este post fosse sobre este tema, mas infelizmente nem sempre a vida corre como queremos. Depois de uma semana intensa de trabalho com os projetos do coletivo, eu sento no computador com a intenção de devanear e leio a notícia: Thomas Farkas faleceu.

Uma tristeza sentida bateu no coração. Farkas é um fotógrafo que eu admiro muito e cuja obra eu não canso de olhar nunca. Suas linhas, ângulos, luzes, sombras, discursos e inquietações sempre apreenderam a minha atenção porque admiro fotógrafos que conseguem em suas carreiras lidar de maneira magistral com a arte de sintetizar informações visuais. Farkas é um exemplo significativo neste campo eu sempre aprendo muito olhando as suas fotografias.

Eu ouvi falar dele pela primeira vez no CinePE, quando assisti um documentário que mostrava o seu trabalho como cineasta. Ele havia registrado, durante um aniversário da cidade de São Paulo, um show antológico de Pixinguinha, mas a câmera não captava o som. Então, para a sorte de Farkas, alguém tinha a gravação da música que eles tocaram no dia da apresentação, no Parque do Ibirapuera, e houve um acordo para que se sincronizasse o vídeo com o audio encontrado. O resultado deste processo pode ser visto no documentário Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, que está disponível na internet no Porta Curtas.

Depois desse vídeo no CinePE, eu fui conhecendo o trabalho de Farkas aos poucos e me apaixonando. Fui vendo exposições, livros, antologias, entrevistas pela televisão. Até que em 2009, eu tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em Recife, quando a exposição Notas de Viagem esteve em cartaz na Galeria Arte Plural. Ouvimos suas histórias e ele compartilhou conosco suas várias impressões sobre a fotografia. Uma delas rendeu a frase publicada hoje por Alexandre Belém no Olhavê.

Em meu acervo pessoal, com muito carinho, guardo de Farkas: a inspiração para uma fotografia, um postal e um catálogo. A foto é a que abre este post. Eu fiz em Porto Alegre, em um dia neblinado, em que estava refletindo muito sobre a vida. Parei na frente do Guaíba e vi a imagem acima. Lembrei da foto do postal-convite da exposição de Farkas em Recife e resolvi fazer uma homenagem a ele com aquele clique. Esta é a foto, inclusive, que coloquei aqui no cabeçalho do meu blog.

Poucos meses depois, eu ganhei do amigo Alejandro Zambrana um catálogo de uma exposição que foi realizada na Bahia, durante o A Gosto da Fotografia, com a obra de Farkas. Guardo a foto, o postal e o catálogo juntos como lembrança das reflexões que sempre tenho feito desde que conheci o trabalho fotográfico deste mestre húngaro-brasileiro.

Agora, Farkas nos deixou, aos 86 anos. No entanto, eu acredito no que postei no Facebook hoje mais cedo: é triste, sim! Mas, ao mesmo tempo, é belo porque suas imagens, seus vídeos, a experiência que ele compartilhava em conversas e discussões e o imenso carinho que ele tinha pelas pessoas ficam. Ficam!

Nota – Algumas das belas imagens de Farkas, contudo, podem ser vistas no blog Olhar Sobre o Mundo, do Estadão.

Grito

Se foi o grito de desejo…
agora que ele foi liberto
eu posso me curar?
Eu posso seguir meu caminho
livre
do grito que se soltou?

Welcome Home!

Welcome Home - 2010 - gUi Mohallem

Hoje é um dia bem especial. Depois de vários anos de viagens, reflexões e uma pesquisa cautelosa e dedicada, o fotógrafo gUi Mohallem abre a sua primeira exposição individual Welcome Home no Brasil, na Galera Emma Thomas, que fica localizada no bairro da Barra Funda, em São Paulo.

Eu não poderei comparecer, mas jamais ousaria deixar de divulgar este trabalho pelo carinho e companheirismo com que gUi e eu construímos uma amizade ao longo dos últimos três anos. Portanto, convido a todos os colegas e amigos próximos que estejam em São Paulo ou que passarão pela cidade até o próximo dia 19 de março para comparecer e ver o belo trabalho de Mohallem.

Esta série que ele está apresentando na Galeria Emma Thomas vem sendo desenvolvida a alguns anos no Tenessee (EUA), onde gUi vem acompanhando as edições do Beltane – celebração de origem celta que saúda a chegada da Primavera – em um santuário que tem como filosofia o respeito à diversidade.

Welcome Home pode ser vista até 19 de março em São Paulo

Em Coney Island, ele entrou em contato com pessoas de diversos países que encontravam em meio à floresta um local de recolhimento e partilha – sensações que em alguns momentos também acompanharam o próprio fotógrafo na descoberta da melhor forma de narrar as experiências que vivia a cada visita ao santuário.

Welcome Home traz um recorte da vivência do fotógrafo e do diálogo com o curador Gabriel Bogossian. As fotos estarão sendo apresentadas em 5 séries e, para quem não vai poder estar presente na exposição (ou quer ter um gostinho antes de ir), algumas imagens estão disponíveis na internet, no flickr de Mohallem. Vale muito a pena ver o trabalho e conversar com o fotógrafo sobre as suas impressões.

gUi Mohallem é mineiro e reside em São Paulo

Welcome Home, de gUi mohallem
Abertura: 5 de fevereiro, das 11 às 20 hs
Período expositivo: 8 de fevereiro a 19 de março
Horário de funcionamento:
De terça-feira a sexta-feira, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 17h.
Local: Rua Barra Funda, 216 – Barra Funda – São Paulo
Telefone: (11) 3666-6489
E-mail: contato@emmathomas.com.br
www.emmathomas.com.br
Entrada gratuita – Censura Livre

Lambe Sujos e Caboclinhos

Zambrana traz a essência do embate entre negros e índios em Laranjeiras (SE)

É muito legal abrir o primeiro post do ano convidando vocês para a exposição de um grande amigo =)

Durante a semana eu devo fazer um pequeno “making of” do processo de montagem, uma vez que estamos ajudando Zambrana na composição da mostra.

Foi um período de muito prazer e aprendizado. Felicidade demais!!!!

Viva, Sempre!

Quando o PC acendeu a lâmpada de ligado pela última vez, há uns seis meses, achei que poderia segurar bem a onda com um segundo equipamento que tenho em casa. Esta certeza caiu por terra, há duas semanas, quando deu uma vontade enlouquecida de ouvir Avesso, na voz de Ceumar, e percebi que as mp3 haviam ficado presas no HD.

A canção faz parte do disco Sempre Viva, que ela lançou por volta de 2003, e no qual canta preciosidades de Kleber Albuquerque, Arnaldo Antunes e Paulo Tatit, Chico César, Tata Fernandes, entre outros compositores bacanas. No caso de Avesso a parceria é entre a própria Ceumar e a poetisa Alice Ruiz, uma das minhas preferidas, que culmina em uma bela canção de amor, daquela que acalenta os dias.

Fui salva pelo amigo Marcelo Robalinho, que pela ação milagrosa tem declarada uma campanha pela santificação (risos). O mais engraçado é que não nos víamos há vários meses e os discos de Ceumar nos uniram mais uma vez. A primeira foi quando ele foi meu companheiro de Música Brasílis, na Rádio Universitária, e os discos da cantora e de diversos outros bons compositores brasileiros e estrangeiros, passavam tanto pelo set list do programa quanto pelas rodas de violão em que ele colocava para fora uma voz linda – junto com Conrado Falbo e Wilza Saraiva.

É bom pensar nessas coisas boas em véspera de fechar o ano. É bom reencontrar amigos, aquecer nossas relações de afeto e estabelecer novas conexões a partir das vivências que tivemos nos hiatos entre um encontro e outro. Eu tenho sentido um prazer enorme nisso, em começar a conviver de novo com pessoas que no passado estiveram muito próximas de mim, mas que por motivos diversos ficaram um pouco afastadas.

As descobertas são incríveis. Novos sons, gostos, visuais, discussões políticas, percepções de mundo, leituras, trabalhos, lugares, referências, pessoas ao redor e eu, boba, aprendendo sobre o universo recente delas – e vice-versa. O melhor disso tudo é quando esses encontros vêm com uma trilha sonora tão gostosa de ouvir. Ceumar vivificou meu ano novo. Amém!

Fotoindependência

Maués com a turma no Marco Zero - Foto: Maria Sousa - Coletivo CMYK

Uma das educandas de Dirceu Maués comentava na seleção para a oficina que estava ansiosa para tirar fotos com uma câmera que ela mesmo construísse. Esse era um dos seus principais exercícios de independência: aprender os códigos iniciais da construção da maquininha. Outros participantes surpreenderam o fotógrafo paraense trazendo câmeras artesanais com adaptações para novos formatos – e eu acabei me lembrando de uma oficina que Luiz Santos deu na Ilha de Deus, cujas câmeras foram feitas com panelas, chaleiras e outros utensílios de cozinha.

O próprio Maués trouxe uma caixa mágica cuja lupa que serve como lente era tão potente que a imagem formada no papel vegetal quase não tinha distorções. Ela é mais cara, claro, custa 19 reais a unidade, mas para trabalhos específicos compensa muito o resultado. As caixas mágicas ainda rendem ótimas observações. Em Palmares, na oficina relâmpago de Ricardo Peixoto, um garotinho ficava girando a caixa para ver se a imagem ficava “normal” (sem estar de cabeça para baixo) e os adultos faziam fila para ver que bicho era aquele.

Uma professora aprendeu a construir a caixa mágica e decidiu usar em aula com os educandos, algo que eu acho bacana, porque a técnica desperta a curiosidade para o modo de produzir imagem que é diferente. Ela nem é totalmente nítida, está de cabeça para baixo, não pode ser fixada em papel ou em suporte digital e a câmera é feita de material encontrado facilmente em qualquer cidade.

É uma experiência lúdica que brinca, inclusive, com o paradigma da permanência na fotografia, uma vez que basta virar a cabeça para a imagem não ser mais a mesma. Tem gente que acha que a caixa mágica é uma diversão boba, mas ela pode ser responsável por discussões tão interessantes que eu venho aqui defender publicamente que a gente possa fazer uma oficina destinada ao universo da caixinha – e não apenas usá-la como atividade de “aquecimento” para uma oficina de fotografia mais robusta.

Tenho refletido bastante sobre isso – ainda mais depois que um rapaz comentou na platéia da palestra de Alexandre Sequeira que vários cursos de fotografia são realizados em vários bairros do Recife e, depois que o curso acaba e os oficineiros vão embora, as atividades com fotografia cessam. Faz tempo que venho discutindo com alguns educadores de fotografia a diferença entre fazer cursos que formem fotógrafos e oficinas cujo objetivo é investir tanto na iniciação de um público para o universo da imagem quanto na formação mais crítica sobre esse meio.

Eu não acho que todo mundo que faz curso de fotografia precisa ser fotógrafo – até porque essa é uma escolha muito pessoal e diz respeito ao desejo de vida de cada um –, mas acho que a gente precisa investir na formação das pessoas. Se quisermos contribuir com uma reflexão mais apurada sobre o meio fotográfico, se desejamos ter um público mais diversificado participando das ações e trazendo retornos sobre a produção e se queremos a valorização do trabalho que é feito por quem escolheu a fotografia como projeto de vida, essa formação é essencial e urgente.

Val Lima, por exemplo, é professora de fotografia da Escola Arco-Íris e os retornos que ela nos conta dos educandos mostram como o conhecimento da área foi importante para construção de um pensamento mais independente deles em relação ao que vêem e produzem no cotidiano. Compreender que fotografia não é apenas “você aperta o botão e a gente faz o resto” e observá-la como discurso, linguagem, técnica, instrumento político, entre outros, é abrir MUITOS mundos.

A gente também viu isso de forma clara com a moçada da terceira turma da Kabum, que participou da oficina de Mila Targino durante a Semana de Fotografia. A discussão no final do curso foi outra. Eles se mostraram mais independentes para opinar e buscar referências e, mesmo que a formação tenha durado apenas uma semana, a clareza na proposta do educador e a maneira como tudo é conduzido pode abrir caminhos.

Quem não lembra de uma aula, tema, episódio ou educador que teve na vida que fez nossos olhos brilharem diferentes e a alma sair inquieta. É algo parecido com aquele dizer de Claudia Linhares “e vai dizer que nunca sentiu uma fotografia desviar seu caminho?”. Pode não ser apenas uma fotografia, mas a fotografia, em seus mais diversos caminhos – esteja pendurada na parede ou na experiência singular na oficina de alguém.

É isso que talvez una Dirceu Maués, Mita Targino, Val Lima, Ricardo Peixoto, Alexandre Sequeira, Miguel Chikaoka, José Albano, Isaias Belo, Jesuel Santana, Elenilson Soares, Vládia Lima, Eduardo Queiroga, Roberta Guimarães, Rachel Ellis, Chico Ludermir, Lucas Cardim e tantos outros educadores – fotógrafos ou não – que existem pelo mundo. E, pensando ainda na turma da Kabum, é possível que na escolha que eles vão fazer nos próximos dias para as turmas da Escola de Arte nem todos optem por fotografia, mas a semente de um envolvimento mais crítico com a produção de imagem foi plantada – e isso faz uma diferença enorme.

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