
Maués com a turma no Marco Zero - Foto: Maria Sousa - Coletivo CMYK
Uma das educandas de Dirceu Maués comentava na seleção para a oficina que estava ansiosa para tirar fotos com uma câmera que ela mesmo construísse. Esse era um dos seus principais exercícios de independência: aprender os códigos iniciais da construção da maquininha. Outros participantes surpreenderam o fotógrafo paraense trazendo câmeras artesanais com adaptações para novos formatos – e eu acabei me lembrando de uma oficina que Luiz Santos deu na Ilha de Deus, cujas câmeras foram feitas com panelas, chaleiras e outros utensílios de cozinha.
O próprio Maués trouxe uma caixa mágica cuja lupa que serve como lente era tão potente que a imagem formada no papel vegetal quase não tinha distorções. Ela é mais cara, claro, custa 19 reais a unidade, mas para trabalhos específicos compensa muito o resultado. As caixas mágicas ainda rendem ótimas observações. Em Palmares, na oficina relâmpago de Ricardo Peixoto, um garotinho ficava girando a caixa para ver se a imagem ficava “normal” (sem estar de cabeça para baixo) e os adultos faziam fila para ver que bicho era aquele.
Uma professora aprendeu a construir a caixa mágica e decidiu usar em aula com os educandos, algo que eu acho bacana, porque a técnica desperta a curiosidade para o modo de produzir imagem que é diferente. Ela nem é totalmente nítida, está de cabeça para baixo, não pode ser fixada em papel ou em suporte digital e a câmera é feita de material encontrado facilmente em qualquer cidade.
É uma experiência lúdica que brinca, inclusive, com o paradigma da permanência na fotografia, uma vez que basta virar a cabeça para a imagem não ser mais a mesma. Tem gente que acha que a caixa mágica é uma diversão boba, mas ela pode ser responsável por discussões tão interessantes que eu venho aqui defender publicamente que a gente possa fazer uma oficina destinada ao universo da caixinha – e não apenas usá-la como atividade de “aquecimento” para uma oficina de fotografia mais robusta.
Tenho refletido bastante sobre isso – ainda mais depois que um rapaz comentou na platéia da palestra de Alexandre Sequeira que vários cursos de fotografia são realizados em vários bairros do Recife e, depois que o curso acaba e os oficineiros vão embora, as atividades com fotografia cessam. Faz tempo que venho discutindo com alguns educadores de fotografia a diferença entre fazer cursos que formem fotógrafos e oficinas cujo objetivo é investir tanto na iniciação de um público para o universo da imagem quanto na formação mais crítica sobre esse meio.
Eu não acho que todo mundo que faz curso de fotografia precisa ser fotógrafo – até porque essa é uma escolha muito pessoal e diz respeito ao desejo de vida de cada um –, mas acho que a gente precisa investir na formação das pessoas. Se quisermos contribuir com uma reflexão mais apurada sobre o meio fotográfico, se desejamos ter um público mais diversificado participando das ações e trazendo retornos sobre a produção e se queremos a valorização do trabalho que é feito por quem escolheu a fotografia como projeto de vida, essa formação é essencial e urgente.
Val Lima, por exemplo, é professora de fotografia da Escola Arco-Íris e os retornos que ela nos conta dos educandos mostram como o conhecimento da área foi importante para construção de um pensamento mais independente deles em relação ao que vêem e produzem no cotidiano. Compreender que fotografia não é apenas “você aperta o botão e a gente faz o resto” e observá-la como discurso, linguagem, técnica, instrumento político, entre outros, é abrir MUITOS mundos.
A gente também viu isso de forma clara com a moçada da terceira turma da Kabum, que participou da oficina de Mila Targino durante a Semana de Fotografia. A discussão no final do curso foi outra. Eles se mostraram mais independentes para opinar e buscar referências e, mesmo que a formação tenha durado apenas uma semana, a clareza na proposta do educador e a maneira como tudo é conduzido pode abrir caminhos.
Quem não lembra de uma aula, tema, episódio ou educador que teve na vida que fez nossos olhos brilharem diferentes e a alma sair inquieta. É algo parecido com aquele dizer de Claudia Linhares “e vai dizer que nunca sentiu uma fotografia desviar seu caminho?”. Pode não ser apenas uma fotografia, mas a fotografia, em seus mais diversos caminhos – esteja pendurada na parede ou na experiência singular na oficina de alguém.
É isso que talvez una Dirceu Maués, Mita Targino, Val Lima, Ricardo Peixoto, Alexandre Sequeira, Miguel Chikaoka, José Albano, Isaias Belo, Jesuel Santana, Elenilson Soares, Vládia Lima, Eduardo Queiroga, Roberta Guimarães, Rachel Ellis, Chico Ludermir, Lucas Cardim e tantos outros educadores – fotógrafos ou não – que existem pelo mundo. E, pensando ainda na turma da Kabum, é possível que na escolha que eles vão fazer nos próximos dias para as turmas da Escola de Arte nem todos optem por fotografia, mas a semente de um envolvimento mais crítico com a produção de imagem foi plantada – e isso faz uma diferença enorme.